Novas histórias para a transmissão da nova cultura

/
Share

In aliis linguis

(Texto procedente do livro Guía para o descenso enerxético. Preparando unha Galiza pospetróleo, publicado pela asociação Véspera de Nada em 2013.)

Tem quem diz as histórias transmitidas no seio de uma comunidade serem o que as matem unidas. Em qualquer caso contos, cantigas, poemas, romances, são mecanismos muito eficazes para guardar a alma de uma comunidade (Farnish 2012, 462) ou, não menos importante, para transmitirem o conhecimento vital para essa sociedade. Destarte, um labor importante que abordarmos na preparação da nossa comunidade é a produção de histórias, que, em estes ou outros formatos, ajudarem a explicar as radicais mudanças que está a experimentar a sociedade em seu conjunto ou a nossa comunidade local, derrubarem os mitos que nos dirigiram a onde é que nos achamos (vid. Greer 2008, 35-71) e permitirem apreender os novos valores e conhecimentos que devem guiar a nova cultura pós-industrial, ao tempo que recuperamos ou mantemos elementos da cultura tradicional galega. Adverte rotundamente John Michael Greer: “as tentativas de mudarmos o decorrer da civilização industrial sem mudarmos as narrativas e símbolos que a dirigem, são condenadas a fracasso”.

“A narração de novas histórias é crucial”, diz também Rob Hopkins (2008, 94), o fundador do movimento das Transition Towns. Se calhar esse tipo de relatos deverão não ser já mais histórias que pretendam nos advertir da catástrofe como vieram fazendo as produzidas até agora pelo movimento ecologista em geral, mas o que denominam alguns como contos pós-admonitórios (Hine et al., 2013), quer dizer: “histórias que dão por evidente a catástrofe e que tentem enxergar como é que a gente vai poder se amanhar e como é que vai achar um novo sentido de comunidade trás a queda do mundo que conhecíamos”. Este tipo de relato não busca quer advertir do colapso quer provocar uma mudança radical que o evitar, mas fazer ver que já estamos a viver as consequências desse colapso e ajudar a configurar como vivermos com elas.

Também, o Dr Michael E. Mills (2008) analisando sob a psicologia evolucionista como é que irá reagir a sociedade diante do problema do peak oil, acha imprescindível a criação de narrativas que ajudarem a mudar valores e a nossa perceção dos demais. “Os tempos revoltos são tempos de mitos”, como diria Dario Xohán Cabana (1994:60). “O que pode tomar o lugar deste progresso só pode ser outra poderosa utopia colectiva (…) «Nom podemos pôr de lado os velhos mitos sem criar novos»” (EPG, 2010, 29). Em este ponto, aliás, serão muito importantes as pessoas com conhecimentos em música, e cultura oral tradicional e as que tiverem capacidades para a criação literária, musical, pitórica (por quê não criarmos murais como as comunidades zapatistas em México?), assim como as que tiverem experiência na denominada de guerrilha de comunicação, que pode ser uma ferramenta comunicativa muito importante durante o período de derrube tanto da cultura industrial (Grupo Autónomo A.F.R.I.K.A 2001; Farnish 2012), quanto de manifestações próprias da época mas de duvidosa perdurabilidade, quer cinema, TV, médios digitais. Outro médio de utilidade puder ser a manipulação profunda do simbolismo para atuar sobre o pensamento mágico (Greer, 2008, 24). De todas estas vias para a construção de novas narrativas vemos um valor especial nas histórias, por poderem ser transmitidas oralmente, e, por tanto, produzidas de jeito local. Assim as coisas, é provável podermos contar com o apoio de outras comunidades para transmitirmos os novos memes culturais entre umas e outras, aproveitando vias de transmissão cultural mais amplas, quer Internet, filmes, publicações impressas, narradores itinerantes (do mesmo modo que os antigos cegos e os seus cantares) etc. Como dizem as gentes do Dark Mountain Project (2009):

Estamos certos destas crises afundarem as suas raízes nas histórias que contamos para nós mesmos. Pretendemos desafiar as histórias que fazem parte da base da nossa civilização: o mito do progresso, o mito da centralidade do ser humano, e o mito da separação entre humanos e ‘natureza’. Eles são mais perigosos em quanto que esquecemos serem apenas mitos.

Com certeza, como elementos decisivos para a elaboração da nova narrativa cultural, teremos necessidade de criarmos novas palavras e desterrarmos da linguagem prejuízos e cargas semânticas impostas pela ideologia industrial-capitalista (“as palavras som sempre de quem vence” —EPG 2010, 26). A linguagem tem uma função mediadora entre o pensamento e a perceção da realidade, sendo usada como veículo da ideologia e instrumento da dominação (Naredo, 2006, 122) e em esse sentido é comparável com o conceito de magia. Assim, também podemos usar a poderosa meta-ferramenta da linguagem para desarmar uma ideologia destrutiva e construir outra nova. Entre estas mudanças, sugeridas por alguns autores como parte da batalha das palavras em esta guerra pelo nosso futuro, poderiam estar:

  • Diferenciarmos sempre entre as palavras trabalho e labor.
  • Defendermos com orgulho termos atualmente despetivos como pailão, paifoca, aldeão… relativos aos habitantes do rural. Dar-lhe a volta ao seu emprego desprezativo, ao modo que têm feito por exemplo os negros e o movimento queer em diversos momentos da história moderna com certos termos usados para denigrarem esses coletivos.
  • Usarmos palavras-projetil que derrubem muros mentais erguidos pela mentalidade industrial-capitalista e que penetraram na língua desde a década de 1970 (Narendra, 2013): medio-ambiente, ecológico, verde, sustentável, bio-, eco-… Procurarmos termos mais difíceis de deturpar pelo sistema industrial e mais ancorados na tradições e na cosmovisão agrária. “Volver carregar as palavras de significados” (EPG 2010, 25).
  • Deixarmos a comunicação da precisão própria da linguagem moderna para nos apoiarmos mais na comunicação da emoção da linguagem premoderna. Isto é, usarmos uma linguagem mais emocional (poética) e menos académica. Basearmo-nos mais no mythos do que no logos, como na Grécia clássica, onde ambos os dois eran médios “precisos e legítimos” (Kornevall, 2013)1, o qual pode ser especialmente útil para a nova educação de crianças. Empregarmos os mitos e ativarmos o pensamento mágico em um sentido construtivo, para a mudança da consciência mediante mecanismos simbólicos que atúem sobre as motivações os valores e as metas pessoais e coletivas, onde o pensamento científico é menos efetivo (Greer 2008, 204 e 207): “(…) o pensamento humano é mítico por natureza (…) qualquer intento de conseguir uma mudança social significativa deve começar pelo nível mítico, com uma narrativa emocionalmente poderosa e simbolicamente significativa, ou não chegará a nenhures.”
  • Empregar uns mecanismos de transmissão de cultura prática com séculos de comprovada efetividade e que são um tipo particular de meme muito útil para a transmissão oral de informação: os refrães. Seria muito interessante tanto recuperar os refrães tradicionais da nossa cultura mais úteis desde o ponto de vista dos valores e conhecimentos que necessitamos revitalizar, quanto criarmos novos refrães para os novos tempos e as novas práticas ou importarmos os próprios de outras culturas de nos resultarem útiles.
  • Procura de símbolos, linguísticos ou não, para nos auto-identificarmos e nos identificarmos com a nossa biorregião ou com a nossa comunidade local. Possível emprego de totens, icones, bandeiras, logótipos, elementos do vestir, autodenominações (porque o que não tem nome, não existe) da gente que empreendemos o caminho da mudança social pospetróleo, como mecanismos de construção (e comunicação expansiva) de uma nova identidade coletiva.
Antía Barba Mariño (ilustração extraída do ‘Guía para o descenso enerxético’).

Bibliografia

  • CABANA, Darío Xohán (1994): O cervo na torre. Xerais, Vigo.
  • CASAL LODEIRO, Manuel (2010c): «Renunciemos a la palabra sostenibilidad», De(s)varia Materia (blog persoal).
  • CASAL LODEIRO, Manuel (2013a): «A urxencia dun novo léxico», De(s)varia materia (blog pessoal).
  • DARK MOUNTAIN PROJECT, THE (2009): Uncivilisation. The Dark Mountain Manifesto. Dark Mountain Project, Ulverston, Reino Unido.
  • ESCOLA POPULAR GALEGA (2010): A defesa da Terra e a dialéctica do progresso. Escola Popular Galega.
  • FARNISH, Keith (2012): Underminers: A Practical Guide for Radical Change. Autoedição.
  • GREER, John Michael (2008): The Long Descent. A user’s guide to the end of the industrial age. New Society Publishers, Gabriola Island, Colúmbia Británica, Canadá.
  • GRUPO AUTÓNOMO A.F.R.I.K.A.; BLISSET, Luther; BRÜNZELS, Sonja (2001): Manual de guerrilla de la comunicación. Virus Editorial, Barcelona.
  • HINE, Dougald; HUNT, Nick; KINGSNORTH, Paul; ODASSO, Adrienne (2013): Editorial: «Post-Cautionary tales», en Dark Mountain, nº 4 (verão 2013). Dark Mountain Project, Ulverston, Reino Unido.
  • HOPKINS, Rob (2008): The Transition Handbook: From oil dependency to local resilience. Chelsea Green, White River Junction, Vermont, EUA.
  • KORNEVALL, Andreas (2013): «Life Cairn», en Dark Mountain, nº 4 (verão 2013). Dark Mountain Project, Ulverston, Reino Unido.
  • MILLS, Michael E. (2008?) «Evolutionary psychology and peak oil: A Malthusian inspired “heads up” for humanity», web pessoal.
  • NARENDRA (2013): «Dispatches from Bastar», en Dark Mountain, nº 4 (verán 2013). Dark Mountain Project, Ulverston, Reino Unido.
  • NAREDO, José Manuel (2006): Raíces económicas del deterioro ecológico y social. Más allá de los dogmas. Siglo XXI, Madrid.
Share

Asociación Véspera de Nada por unha Galiza sen petróleo. Desde 2008 divulgando o Peak Oil e apoiando as iniciativas para unha transición da sociedade galega a un mundo pospetróleo.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Artículo anterior

Poemas de «O mundo nasce em Chantada»

Siguiente artículo

As raízes comunitárias dos movimentos sociais

Lo último de Blog