O Poder, a Transição e o Decrescimento. Uma reflexão a partir do encontro de Transição e Decrescimento na Galiza

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Para quem é adepto do movimento das Cidades em Transição e do Decrescimento é fácil pensar que se tivéssemos mais poder o mundo seria melhor. O movimento da Transição diz-nos que não procuramos um poder centralizado mas sim a subsidiariedade, ou seja que em cada nível e em cada local haja poder para decidir sobre os assuntos que podem ser geridos a esse nível. Os problemas de sustentabilidade são globais mas as soluções são locais e por isso procuramos que haja pessoas em todo o lado a fazer a diferença e que cada cidade, bairro, vila ou aldeia construa a sua própria resiliência com suas pessoas, os seus recursos, o seu poder. E depois articularmo-nos todos em algo maior. Mas parece que nos falta o poder porque a mudança não está a acontecer à velocidade que desejaríamos e que é necessária para prevenir as alterações climáticas e os seus enormes impactes negativos.

No encontro de transição e decrescimento que decorreu na cidade de Betanzos, na Galiza em Outubro de 2016, falou-se sobre a cidade, a energia, construção, alimentação, saúde, activismo e a transição interior. Deram-se exemplos de como os grupos conseguem poder através do trabalho conjunto. E ferramentas práticas para lidar com grupos. Deram-se algumas palestras que trouxeram argumento e visão e procuraram a união. E essa união encontrou-se em grupos de pessoas, em relações humanas que nos inspiraram e apaixonaram. Mas todos juntos unidos num mesmo objectivo? Isso não chegou bem a acontecer. Podia ter acontecido. Mas será esse mesmo o objectivo? Também não pois temos vários objectivos complementares. Então que tipo de união se pretende? Será a união em torno de uma forma de falar, conversar, planear, trabalhar e de nos juntarmos para o nosso planeta de sonho? Será a união em torno de uma mudança de paradigma, do atual para outro consensual? Mas existirá outro consensual? Ou será uma união em torno de um salto deste paradigma na direcção de outros? Sabemos que diferentes paradigmas e valores se complementam mas também entram em conflito. A procura de soluções de convivência e de aprendizagem entre eles e as pessoas e grupos que os defendem é uma tarefa para a vida e para todo o sempre. Quais são então os próximos passos a tomar? Em primeiro lugar há que ter claro que é a aceitação dos vários paradigmas a principal e mais importante mudança de paradigma. Em cada sistema político existe uma racionalidade dominante e esse próprio sistema promove essa racionalidade, excluindo e desvalorizando o conhecimento que não incide sobre esta racionalidade. No sistema actual é o crescimento económico e o défice e a dívida e o PIB. Trabalhar para mudar de paradigma e pela aceitação e valorização de outros valores e formas de pensar implica trabalhar com esta racionalidade mas não para a manter e promover mas sim para conseguir ser escutado e propor e valorizar outras racionalidades complementares. A importância do nosso bem-estar interior, individual e colectivo, a importância da preservação do Planeta, a importância das gerações futuras e das outras espécies e seres vivos, a importância da magia e do simbólico, a importância da beleza e da essência da beleza em todas as coisas, a importância de trabalharmos com a natureza e de vivermos num planeta em equilíbrio. A importância do amor e da poesia e da arte.

Martin Luther King dizia que o poder sem amor é destrutivo e abusivo. Mas também o amor sem poder é inocente e anémico. Então precisamos de dar e conseguir mais poder para quem tem amor e que quem tenha poder tenha amor na mesma dimensão. Se aceitarmos este pressuposto então podemos operacionaliza-lo da seguinte forma: cada um tem direito ao poder na medida directa do seu amor. Ou seja, se alguém tem amor apenas por si então deve ter poder apenas sobre si mesmo. Se tem amor apenas pelos seus amigos apenas deve ter poder sobre/com os seus amigos. E se alguém tem amor sobre um país então deve ter poder sobre/com esse país. Mas atenção, que é fácil dizer e pensar que se tem amor por um planeta ou por um país mas na verdade não incluir todos os que estão lá dentro. Nesse caso então o amor não é pleno pelo que não se deveria atribuir poder a esta pessoa sobre este sistema. Vejamos como exemplo o sr Trump, eleito presidente dos EUA. Se ele não tem amor pela população imigrante, pelas várias etnias, espécies de seres vivos, etc., então não deveria ter poder sobre este território.

Voltemos então ao encontro e ao movimento de Transição e Decrescimento. Em Espanha existem duas redes, uma tem o primeiro nome e outra o segundo. Em termos de valores e de objectivos penso que as duas estão bastante alinhadas sendo talvez de realçar que a Transição é um pouco mais abrangente pois inclui, por exemplo, os aspectos da transição interior. Por outro lado o Decrescimento é talvez um pouco mais concreto e específico na sua visão político-económica. Dois movimentos, duas redes. Alguns valores importantes em comum mas práticas diferentes. Um exemplo perfeito para olhar a sociedade e a união que procuramos. Quando analisamos a vontade de unir esforços num encontro com duas redes diferentes surge a questão do amor. Quem tem amor por todos consegue unir. Quem tem amor apenas por si ou pelo seu grupo consegue desunir. Num mundo ideal todos têm amor por todos o que facilita imenso a comunicação. Mas o amor não basta. É necessário também ter as ferramentas, a legitimidade, o conhecimento, o momentum, etc.

O encontro de Transição e Decrescimento que aconteceu em Betanzos no final de Outubro e início de Novembro de 2016 foi inspirador pelas pessoas, pelas conversas, pelas apresentações, pelos workshops, pela celebração e pelo stand up comedy que nos fez rir sobre nós próprios. Mas também teve um momento de avaliação em faltou união e como tal alguns dos aspectos que mencionei em cima. Foi também inspirador para nós Portugueses por estarmos com os Galegos e os Espanhóis, juntos em movimento, falando três línguas diferentes e a compreendermo-nos todos. Foi interessante ouvir os restantes ibéricos falarem sempre no género feminino no plural em vez do masculino. Assim trocam humanos por pessoas e deixam em nós [pessoas] Portuguesas (para começar a aplicar e praticar) um jeitinho estranho que parece meio gay mas é na verdade provocador do domínio do homem na nossa sociedade.

Assim, a todas as pessoas do movimento de transição e decrescimento gostaria de deixar uma mensagem de reflexão a partir deste encontro internacional: Nós temos mais poder do que aquele que usamos. E nós temos direito a mais poder do que aquele que tomamos. O poder realizado com amor não é poder sobre alguém mas poder com alguém. Passa também por dar a voz a quem não a tem em vez de falar por esse alguém. Devemos usar este poder que está entre nós porque temos uma visão e ferramentas para um mundo com poder partilhado. E temos o amor, nós e vós e muitos por todo o lado. E temos de alargar ainda o nosso amor, para que ele não seja apenas um amor por uma visão mas sim um amor por um planeta e por todos os seres vivos e opiniões que convivem lá dentro. E para conseguirmos usar bem este poder com estes seres vivos precisamos de conhecimento e ferramentas técnicas para saber trabalhar com as pessoas e com a natureza. E precisamos de recursos e de mobilização e estes estão connosco, somos nós, as pessoas deste mundo. Temos o que precisamos para continuar. Para conseguirmos dar mais um passo épico só nos falta querer, a sério, e saber. Somos muitos. Falta muito. Mas já faltou muito mais. Estamos quase lá. E será bom o caminhar.

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Investigador no CE3C - Universidade de Lisboa, membro da Transição Portugal e da Rede Convergir, e Permacultor.

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